Jornal Comunicação: É comum ouvir que o crítico é alguém de nariz empinado que só reclama do filme ou que qualquer um pode ser crítico de cinema. Como você enxerga estes estereótipos?
Pablo Villaça: Engraçado, essas são as duas opiniões mais comuns e muitas vezes a mesma pessoa tem as duas opiniões. Qualquer um pode ser crítico? Claro que pode, desde que estude. Qualquer um pode ser médico, desde que estude. A pessoa sabe o que foi o Expressionismo Alemão? Não. Sabe quem foi Fritz Lang? Ah, ouviu falar, mas não. Então quer dizer que você é critico de cinema? É estúpido pensar que ter uma opinião sobre um filme faz de você um crítico de cinema. Por outro lado, eu entendo esta opinião do critico pedante. As pessoas tendem a ter uma reação visceral aos filmes. O cara vai assistir Lembranças[filme do gênero drama com o astro teen Robert Pattinson], que é muito ruim. Chora o filme inteiro. Ele vai ler a crítica que diz que o filme é péssimo e vai ficar ofendido, achando que o crítico considera errada a sua reação emocional. E não é isso. O que eu questiono é a forma como essas emoções foram despertadas pelo filme, pelo maniqueísmo, pelo clichê.
Comunicação: Mas onde estaria a origem destes estereótipos?
Villaça: Para começar, não existe no Brasil uma escola de críticos de cinema. Normalmente você tem o jornal. De repente, o editor precisa de um crítico e pega o fulano que gosta de cinema para crítico do jornal. Ele não tem embasamento teórico-prático nenhum. Sabendo disso, vai meter o pau em tudo, para parecer que é exigente. Essa é a origem da fama do crítico ser um cara que não gosta de nada, são esses críticos de mídia impressa que escrevem porque foram designados e metem o pau em tudo, em função da insegurança que eles têm.
Comunicação: Quais os elementos que compõem uma boa crítica de cinema?
Villaça: O fundamental é ter embasamento teórico. De preferência, com argumentos justificados por exemplos retirados do filme, o que torna a crítica mais didática, e que deixem clara a posição do autor em relação à obra. E não só ela isoladamente, mas do filme dentro de um contexto da história do cinema, se possível.
Comunicação: Como a Internet veio mudar o cenário da crítica cinematográfica?
Villaça: A Internet é uma excelente forma de se popularizar a discussão sobre cinema. Através dos blogs cada vez mais pessoas estão escrevendo sobre o tema. Só de você querer escrever sobre um filme, você se obriga a prestar mais atenção e pensar sobre ele. Isso é muito bacana. Mas dizer que um blogueiro que escreve sobre cinema há seis meses e nunca estudou teoria vai ter o mesmo embasamento de uma pessoa que trabalha com crítica, estuda constantemente, isto é uma inverdade. A melhor maneira de avaliar a diferença é prestar atenção nos argumentos. Existe a crítica que se limita a apontar coisas no filme mas não justifica porquê aquilo é assim. E de certa forma o crítico “amador” vai limitar os comentários à história do filme e, aqui e ali, a atuação. Ele não vai buscar ver outras coisas.
Comunicação: Como fugir do pedantismo e não achar que um filme é bom só por ele ser desconhecido ou por ter uma história complicada?
Villaça: Tem uma frase do Roger Ebert [famoso crítico norte-americano]: “Não interessa sobre o que o filme é, interessa como o filme é sobre aquilo que ele é”. Se o filme se propõe a discutir uma coisa e faz isso bem, o tema não importa. Ele pode estar discutindo uma questão filosófica ou o amor adolescente. Eu dei cinco estrelas e elogiei fartamente Débi & Lóide, Homem-Aranha, X-Men… Eu não vou falar mal de um filme que é comercial e elogiar um filme que é independente só porque um é independente e o outro é comercial. Eu avalio o filme pelo que ele se propõe a ser. Mas existem veículos na Internet com um pedantismo terrível. Escrevem uma critica extremamente presunçosa, hermética, que é uma enrolação intelectual profunda, e o cara elogia um tipo de cineminha que é um nicho. Ele acha que aquilo é cinema e que o que não se encaixa naquilo não é cinema.
Comunicação: Quais seriam os primeiros passos para alguém que quisesse se tornar um crítico de cinema?
Villaça: Estudo. Teoria, história do cinema e assistir a muitos filmes. É um trabalho extenso, você tem cento e tantos anos de história do cinema para avaliar. A vantagem é que é extremamente prazeroso, porque ao mesmo tempo em que você estuda a teoria, você vai observar aquilo na prática assistindo aos filmes. E ver filme é muito gostoso.
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